A Divina Comédia e a Filosofia (1803)
por Friedrich Wilhelm Schelling
Tradução por Geovane Campanher
10/24/202616 min read


Aqueles que amam o passado mais do que o presente não acharão estranho se verem atraídos para longe de seus espetáculos nem sempre gratificantes e serem levados de volta a um monumento tão distante da Filosofia combinada com a Poesia como as obras de Dante, que há muito são ofuscadas pela sacralidade da antiguidade.
Como justificativa para o espaço que estes pensamentos ocupam aqui, por ora, não exijo outra admissão além de que o poema ao qual se referem apresenta um dos problemas mais notáveis sobre a construção filosófica e histórica da arte. O que segue mostrará que esta investigação contém em si uma questão muito mais geral, que concerne às circunstâncias da própria Filosofia e é de não menos interesse para a Filosofia do que para a Poesia. Sua fusão recíproca, à qual toda a era moderna está inclinada, exige condições igualmente determinadas de ambos os lados.
No Santo dos Santos, onde religião e Poesia se aliam, Dante se posiciona como o sumo sacerdote e iniciador de todo o curso da arte moderna. Representando não apenas um único poema, mas todo o gênero da Poesia moderna, e até mesmo um gênero por si só, a Divina Comédia está tão fechada em si mesma que nenhuma teoria abstraída de modelos individuais é suficiente para descrevê-la. Como um mundo próprio, exige sua própria teoria. O autor lhe deu o epíteto “divina” porque trata de Teologia e coisas divinas; chamou-a de “comédia” de acordo com os conceitos básicos deste e do gênero oposto: por causa do início aterrorizante e desfecho feliz, e pela natureza mista de seu poema, cujo assunto é parte sublime e parte humilde, tornando necessária uma forma mista de recitação.
Mas é fácil ver que não pode ser chamado de “dramático” de acordo com os conceitos geralmente aceitos, porque não retrata uma ação limitada. Pois na medida em que o próprio Dante é visto como o protagonista principal, alguém que serve como elo entre a série imensurável de visões e retratos, e que se comporta de maneira passiva em vez de ativa, o poema pode parecer se aproximar do romance. Mas essa definição faz tão pouca justiça ao poema que poderia ser chamado de “épico”, segundo uma visão mais comum, já que não há continuidade sequencial nos objetos retratados. Vê-lo como um poema didático é igualmente impossível, já que é escrito com uma forma e intenção muito mais imprecisas do que as do poema didático. Portanto, não é um exemplo particular de nenhum dos casos acima, nem é apenas uma combinação de várias partes de cada um. É uma fusão totalmente única e, por assim dizer, orgânica de todos os elementos desses gêneros, que não pode ser reproduzida por nenhuma habilidade arbitrária. É algo absolutamente individual, não comparável a nada fora de si mesmo.
Falando de forma ampla, o assunto do poema é a identidade clara e essencial de toda a época em que o poeta viveu, a imersão de seus eventos nas ideias de religião, conhecimento científico e Poesia, concebidas na mente superior daquele século. Mas não é nossa intenção olhar para o poema em sua relação imediata com seu próprio tempo, mas sim vê-lo em sua validade universal e em seu papel de arquétipo para toda a Poesia moderna.
A lei necessária que governa o ponto ainda indeterminado e distante, onde a grande épica dos tempos modernos, que até agora se revelou apenas de forma rapsódica e em manifestações isoladas, emerge como uma totalidade completa é esta: que o indivíduo molda aquela parte do mundo revelada a ele em um todo e cria sua própria mitologia a partir do material de sua época, de sua história e seu aprendizado científico. Pois, assim como o mundo antigo é em geral um mundo de tipos, o moderno é um de indivíduos. Lá, é o geral que é verdadeiramente particular; a espécie atua como um único indivíduo. Aqui, por outro lado, o ponto de partida é a particularidade, que se supõe tornar-se geral. Por essa razão, tudo entre os antigos é duradouro e eterno. O número parece não ter força, uma vez que o conceito do geral se funde com o do individual. Entre os modernos, a mudança e a alteração são uma lei constante. Não é um círculo concluído e fechado, mas um ente infinitamente expandido através da individualidade que determina suas modificações; e porque a universalidade é da essência da Poesia, a necessidade requer que, através da suprema singularidade, o indivíduo se torne universalmente válido novamente. Através da particularidade plenamente desenvolvida, ele deve tornar-se absoluto mais uma vez. É através da pura individualidade de seu poema, comparável a nada mais, que Dante é o criador da arte moderna, que não pode ser concebida sem esta necessidade arbitrária e arbitrariedade necessária.
Desde os primórdios da Poesia grega, a partir de Homero, vemos uma Poesia claramente distinta do aprendizado científico e da Filosofia, e esse processo de separação continuou até a polarização total dos poetas e dos filósofos, que buscaram em vão efetuar uma harmonia por meio de explicações alegóricas dos poemas homéricos. Em tempos mais recentes, o conhecimento científico avançou além da Poesia e da mitologia, que de fato não podem ser mitologia sem serem universais e sem incorporar todos os elementos da cultura existente — ciência, religião, a própria arte — e sem combinar não apenas o material do presente, mas também do passado para formar uma unidade perfeita. Já que a arte exige o completado, o autossuficiente e o limitado, enquanto o espírito do mundo moderno empurra em direção ao ilimitado e derruba cada barreira com determinação inabalável, o indivíduo deve entrar nesse conflito, mas com liberdade absoluta. Ele deve buscar alcançar formas duradouras a partir da confusão da era, e nas formas arbitrariamente produzidas das imagens de sua Poesia, ele deve novamente conferir validade universal.
Isso Dante o fez. Ele tinha o material da história presente e do passado diante de si. Ele não podia trabalhá-lo em uma epopeia pura, parcialmente por sua natureza, parcialmente porque, ao fazê-lo, excluiria outros aspectos da cultura de seu tempo. A astronomia contemporânea, a Teologia e a Filosofia também pertenciam a esse todo. Ele não podia apresentá-los em um poema didático porque se limitaria mais uma vez, e, para ser universal, seu poema tinha que ser ao mesmo tempo histórico. Era necessária uma invenção completamente voluntária, emanando do indivíduo e capaz de combinar esse material e moldá-lo organicamente em um todo. Apresentar as ideias da Filosofia e Teologia em símbolos era impossível, porque não existia uma mitologia simbólica. Também não poderia tornar seu poema completamente alegórico, pois então ele não seria mais histórico. Portanto, tinha que ser uma mistura completamente única do alegórico e do histórico. Na Poesia exemplar dos antigos, não era possível uma alternativa desse tipo. Apenas o indivíduo poderia apreendê-la, apenas a invenção livre e simples poderia persegui-la.
O poema de Dante não é alegórico no sentido de que as figuras simplesmente representam algo mais, sem serem independentes deste significado e, portanto, algo por si mesmas. Por outro lado, nenhuma delas é independente do significado de tal forma que se torne una com a própria ideia, e mais alegórica do que dela. Assim, no poema de Dante, há um ponto médio bastante único entre alegoria e formas simbólico-objetivas. Por exemplo, não há dúvida — e o próprio poeta o explicou em outro lugar — que Beatriz é uma alegoria, ou seja, da Teologia. Assim também suas companhias, e muitas outras figuras. No entanto, elas ainda se registram por direito próprio e entram como personagens históricos, sem por isso serem símbolos.
Neste aspecto, Dante é arquetípico, pois expressou o que o poeta moderno deve fazer para apresentar em sua totalidade e em um todo poético a história e cultura de seu tempo e o material mitológico particular que está diante dele. Ele deve combinar o alegórico e o histórico com absoluta liberdade de escolha. Ele deve ser alegórico, e é assim contra sua vontade, porque não pode ser simbólico; e histórico, porque deve ser poético. A invenção que ele produz é, neste aspecto, única e um mundo por si só, que é totalmente dependente da personalidade.
De maneira semelhante, o único poema alemão de proporções universais que une os aspectos mais extremos dos conflitos da era, através de uma invenção totalmente individual de uma mitologia parcial, é a figura de Fausto. No entanto, isso pode ser considerado uma comédia muito mais no sentido aristofânico do que o poema de Dante, e como divino em um sentido diferente e mais poético.
A energia com que o indivíduo molda a combinação particular dos materiais disponíveis de sua vida e época determina a extensão na qual ela recebe força mitológica. Por causa do lugar no qual ele os situa, que é eterno, os personagens de Dante já assumem um tipo de eternidade. Mas não apenas os eventos reais retirados de seus próprios tempos, como a história de Ugolino, mas também o que ele inventou completamente, como, por exemplo, o destino de Ulisses e seus companheiros, que assumem, no contexto de seu poema, uma verdadeira convicção mitológica.
Apresentar a Filosofia, Física e astronomia de Dante puramente por elas mesmas seria de interesse menor, já que sua verdadeira singularidade reside somente na maneira como se fundem com a Poesia. A cosmologia ptolomaica, que é até certo ponto a base do edifício poético, já possui um colorido mitológico em si mesma; mas se sua Filosofia é geralmente descrita como aristotélica, o que deve ser entendido aqui não é a versão puramente peripatética, mas sim a conexão particular vigente naquela época entre ela e as ideias platônicas, uma que se revela em investigações repetidas do poema.
Não desejamos nos deter na força e integridade de pontos individuais, nem na simplicidade e infinita ingenuidade das imagens individuais nas quais ele expressa suas ideias filosóficas, como a conhecida da alma, que emerge das mãos de Deus como uma garotinha, infantil em seu riso e choro, uma alminha inocente que não sabe nada além do que é controlado por seu criador alegre, voltando-se de bom grado para o que a diverte.
Estamos apenas preocupados com a forma geralmente simbólica do todo, na qual a validade universal e a natureza eterna deste poema são mais do que em qualquer outro lugar aparentes.
Se a união de Filosofia e Poesia, mesmo no nível mais elementar de síntese, é vista como Poesia didática, então é necessário, porque o poema deve ser sem qualquer motivo ulterior, que a intenção de instruir seja novamente por si só superada e transformada em um absoluto, de modo que possa parecer existir por sua própria causa. Isso, no entanto, só é concebível se o conhecimento, como imagem do universo e em completa harmonia com ele, for por si só poético, como na Poesia mais original e bela. O poema de Dante é uma interpenetração muito mais elevada do conhecimento científico e da Poesia, e tanto mais sua forma, mesmo em sua autossuficiência mais livre, deve estar sintonizada com o paradigma geral da visão de mundo.
A divisão do universo e a organização do assunto em três reinos, Inferno, Purgatório e Paraíso, independentemente do significado particular desses conceitos no Cristianismo, é também uma forma simbólica geral, de modo que não se vê por que cada período não poderia ter sua própria divina comédia. Assim como para o drama atual, a forma de cinco atos é considerada usual, porque cada evento pode ser visto em seu início, continuação, clímax, progresso para conclusão e finalização real; assim para a Poesia profética superior, que expressa um período inteiro, essa tricotomia de Dante é concebível como uma forma geral, mas cujo preenchimento seria infinitamente variado à medida que é revitalizado pelo poder da invenção original. Essa forma é eterna, não apenas como forma externa, mas também como expressão sensível do paradigma interno de todo o conhecimento científico e Poesia, e é capaz de conter dentro de si os três grandes domínios da ciência e cultura: natureza, história e arte. A natureza, como o berço de todas as coisas, é a noite eterna, e, como aquela unidade através da qual elas têm seu ser em si mesmas, é o afélio do universo, o lugar da distância de Deus como o verdadeiro centro. A vida e a história, cuja natureza é uma sucessão de avanços passo a passo, são simplesmente um processo de refinamento, uma transição para um estado absoluto. Isso está presente apenas na arte, que antecipa a eternidade, e é o Paraíso da vida, verdadeiramente no centro.
Visto de todos os lados, o poema de Dante não é, portanto, uma única obra de um tempo e estágio cultural particular, mas é arquetípico por sua validade universal, que unifica todas as coisas em sua individualidade absoluta. Sua universalidade não exclui nenhum aspecto da vida e da cultura, e sua forma, finalmente, não é um paradigma particular, mas acima de tudo o paradigma da contemplação do universo.
A estrutura interna particular do poema certamente não pode ter validade universal, uma vez que é formada de acordo com os conceitos da época e as intenções particulares do poeta. Por outro lado, como se pode esperar de uma obra tão artística e totalmente deliberada, o paradigma interno universal é simbolizado externamente pela forma, cor e tom das três grandes seções do poema.
Dada a natureza incomum de seu assunto, Dante precisava de uma espécie de autenticação para a forma detalhada de suas invenções, que apenas o conhecimento científico de sua época poderia lhe dar. Isso é para ele, por assim dizer, a mitologia e a fundação geral que suporta o audacioso edifício dessas invenções. Mas mesmo em detalhes, ele permanece fiel à sua intenção de ser alegórico sem deixar de ser histórico e poético. Inferno, Purgatório e Paraíso são, por assim dizer, simplesmente a expressão física e estrutural do sistema de Teologia. As medidas, números e proporções que ele observa dentro dele foram prescritas pelo conhecimento científico, e aqui ele deliberadamente desistiu da liberdade de invenção para dar ao seu poema, que era ilimitado no que diz respeito ao material, necessidade e limitação através da forma. A sacralidade universal e significado dos números é outra forma exterior em que sua Poesia se baseia. Assim, para ele toda a erudição lógica e silogística de sua época é mera forma, que deve ser concedida a ele se quisermos chegar à região em que sua Poesia existe.
No entanto, nesse apego às representações religiosas e científicas, Dante nunca busca qualquer tipo de probabilidade poética comum, como a coisa mais universalmente válida que sua época tinha a oferecer. Na verdade, ele supera toda inclinação para se render às faculdades mais grosseiras. Sua primeira entrada no Inferno acontece, como tinha que acontecer, sem qualquer tentativa não poética de motivá-la ou torná-la compreensível; é um estado semelhante a uma visão, sem haver intenção de fazer esse estado justificá-la. Sua elevação através dos olhos de Beatriz, através dos quais a força divina, por assim dizer, se transmitiu a ele, é expressa em uma única linha. A natureza maravilhosa de seus próprios encontros ele transforma diretamente em uma figura dos segredos da religião e dá credibilidade a eles através do mistério ainda maior, como quando ele faz sua absorção na lua, que ele compara a um raio de luz estando na água, mas não a dividindo, em uma imagem da encarnação de Deus.
Explicar a plenitude da arte e a profundidade da intenção na construção interna das três partes do mundo em detalhes seria uma ciência especial por si só. Isso foi reconhecido por sua nação pouco tempo após a morte do poeta, pois eles criaram uma Cátedra Dante especial, que Boccaccio foi o primeiro a assumir.
O que é universalmente significativo na primeira seção transparece em cada uma das três partes do poema, e não apenas em suas invenções particulares; a lei que se aplica a elas expressa essa significância ainda mais precisamente no ritmo interno e espiritual através do qual elas são contrapostas uma à outra. Assim como o Inferno é o mais objetivamente terrível em seu assunto, assim é o mais forte em expressão e o mais estrito em dicção, sombrio e cheio de temor em sua própria escolha de palavras. Em uma parte do Purgatório, prevalece uma profunda quietude, à medida que os lamentos do mundo inferior se silenciam; e em suas colinas, os átrios do céu, tudo é glorioso. O Paraíso é uma verdadeira música das esferas.
A diversidade e a variedade dos castigos no Inferno foram concebidas com uma inventividade quase sem paralelos. Não há nada além de uma conexão poética entre os crimes e os tormentos. O espírito de Dante não se indigna com o horrível; de fato, ele vai ao extremo limite do horror. Mas pode ser demonstrado, em cada caso individual, que ele nunca deixa de ser sublime e, portanto, verdadeiramente belo. Pois o que aqueles que não estão em posição de compreender o todo destacaram como baixo ou inferior não é assim no sentido que eles querem dizer, mas é um elemento necessário da natureza mista do poema, razão pela qual o próprio Dante o chama de “comédia”. O ódio ao mal e a ira de uma mente divina, como expresso na composição aterradora de Dante, não são a porção de almas comuns. A visão geralmente aceita é, com efeito, muito duvidosa: a de que foi o exílio de Florença, antes do qual ele havia dedicado sua Poesia quase exclusivamente ao amor, que primeiro estimulou sua mente (já inclinada ao sério e ao extraordinário) à mais alta inventividade, na qual ele exalou toda a sua vida, toda a densidade de seu coração e pátria, junto com seu descontentamento sobre eles. Mas a vingança que ele exerce no Inferno é feita em nome do Juízo Final. Ele fala com força profética como um juiz criminal autorizado; não por ódio pessoal, mas como uma alma piedosa ultrajada pelas atrocidades dos tempos, e com um amor pela pátria há muito desconhecido. Assim, ele se representa em um ponto no Paraíso:
Se este sacro poema houver podido
(Em que tem posto a mão o céu e a terra
3 E em que hei por tanto tempo emagrecido)
Aquele ódio abrandar que me desterra
Do belo aprisco, onde eu dormi cordeiro,
6 Contrário aos lobos, que lhe movem guerra;
Com voz e lã melhor que de primeiro
Voltando, eu do batismo sobre a fonte
9 Hei-de vate, cingir-me de loureiro;
Ele modera os horrores dos tormentos dos condenados com seu próprio sentimento, que no objetivo final de tanta miséria quase supera sua visão a ponto de desejar chorar, e Virgílio diz a ele: “Por que estás aflito?”
Já foi observado que a maioria das punições no Inferno simboliza os crimes que são punidos por elas, mas várias são simbólicas em um contexto muito mais geral. Um exemplo particular desse tipo é a representação de uma metamorfose onde duas naturezas mudam e, uma através da outra, por assim dizer, trocam identidade material. Nenhuma das metamorfoses da antiguidade pode se equiparar a isso em termos de invenção, e se um naturalista ou poeta didático fosse capaz de elaborar com tanta força imagens sensíveis da eterna metamorfose da natureza, ele poderia de fato se considerar afortunado.
Como já observado, o Inferno difere das outras partes não apenas em termos da forma externa de apresentação, mas também porque está principalmente preocupado com o reino das figuras e é assim a parte tangivelmente incorporada do poema. O Purgatório deve ser reconhecido como o pitoresco. Não apenas as penitências que são impostas aqui aos pecadores são tratadas de maneira bastante pictórica, indo até a alegria, mas a peregrinação sobre o monte sagrado do lugar de penitência apresenta uma rápida sucessão de vistas fugazes, cenas e efeitos de luz variados. Em seus limites finais, depois que o poeta chega ao Lete, o maior esplendor de pintura e cor se abre nas descrições dos antigos bosques divinos dessa região, da clareza celestial das águas que são turvadas por suas sombras eternas, da virgem que ele encontra na margem e da chegada de Beatriz em uma nuvem de flores, sob um véu branco coroado com oliveiras, envolta em um manto verde e vestida com chama viva púrpura.
O poeta forçou seu caminho para a luz através do centro da Terra. Na escuridão do submundo, apenas formas poderiam ser distinguidas. No Purgatório, a luz é acesa pela matéria terrestre e torna-se cor. No Paraíso, apenas a pura música da luz permanece, o reflexo cessa, e o poeta eleva-se gradualmente à contemplação da substância transparente e pura da própria Divindade.
A visão do cosmos na época do poeta e das propriedades das estrelas e da extensão de seu movimento é investida com dignidade mitológica, base sobre a qual suas invenções nesta parte do poema repousam. E se nesta esfera de absolutismo ele ainda permite que graduações e diferenças apareçam, então ele as supera com o esplêndido pronunciamento que falou por meio de uma das almas irmãs que encontra na lua: que todo lugar no céu é paraíso.
A estrutura do poema requer que os princípios mais altos da Teologia sejam discutidos, precisamente por causa da elevação através do Paraíso. O alto respeito por esta ciência é exemplificado pelo amor por Beatriz. É necessário que, na mesma medida em que a contemplação se funde no puramente universal, a Poesia perca suas formas e se torne música. Neste aspecto, o Inferno pode parecer a parte mais poética. Mas certamente nada pode ser tomado separadamente aqui, e a excelência particular de cada parte do poema só pode ser entendida e verdadeiramente reconhecida em sua harmonia com o todo. Se a relação das três partes é tomada como um todo, então o Paraíso deve ser visto como a parte puramente musical e lírica da própria intenção do poeta, que demonstra isso em formas externas através do uso frequente das palavras latinas dos hinos da Igreja.
A grandeza extraordinária deste poema, que brilha na interpenetração de todos os elementos da Poesia e da arte, desta forma, alcança plenamente a manifestação externa. Esta obra divina não é nem plástica, nem pictórica, nem musical, mas todas estas ao mesmo tempo e em uma harmonia mútua. Não é dramática, nem épica, nem lírica, mas uma combinação completamente individual e sem paralelo de todas estas.
Ao mesmo tempo, acredito que demonstrei que é profético e exemplar para toda a Poesia moderna. Contém todos os atributos da Poesia moderna dentro de si e emerge do assunto frequentemente mesclado do mesmo, como a primeira vindima a se espalhar da terra ao céu; o primeiro fruto da transfiguração. Aqueles que querem conhecer a Poesia dos tempos mais recentes em sua fonte, em vez de se utilizar de conceitos superficiais, podem se testar contra este grande e severo espírito, para saber os meios pelos quais a totalidade da era moderna pode ser compreendida, e que nenhum laço facilmente criado a une. Aqueles que não são chamados para fazer isso podem aplicar a si mesmos as palavras no início da primeira parte:
“Abandonai toda esperança, vós que aqui entrais.”


