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Dos Predicamentos

por Santo Tomás de Aquino

Tradução por Abner Benedetto

7/12/20264 min read

In III Physic., lect. 5

O ente divide-se em dez predicamentos (praedicamenta) não univocamente, como o gênero em espécies, mas segundo os diversos modos de ser (modum essendi). Os modos de ser, porém, são proporcionais aos modos de predicar (modis praedicandi). Pois, predicando-se algo de outro, dizemos que “isto é aquilo”; donde também os dez gêneros do ente se chamam dez predicamentos.

Ora, toda predicação faz-se de três modos. Um modo, quando de algum sujeito se predica aquilo que pertence à sua essência, como quando digo “Sócrates é homem”, ou “o homem é animal”; e, segundo isso, toma-se o predicamento da substância (substantiæ).

Outro modo, quando se predica de algo aquilo que não é de sua essência, mas inere nele. O que ou se tem da parte da matéria do sujeito, e segundo isso é o predicamento da quantidade (quantitatis) – pois a quantidade propriamente se segue à matéria; donde também Platão pôs o grande da parte da matéria –; ou se segue à forma, e assim é o predicamento da qualidade (qualitatis) – pois também as qualidades se fundam sobre a quantidade, como a cor na superfície, e a figura nas linhas ou nas superfícies –; ou se tem por respeito a outro, e assim é o predicamento da relação (relationis) – pois, quando digo que o homem é pai, não se predica do homem algo absoluto, mas o respeito que lhe inere a algo extrínseco.

O terceiro modo de predicar, contudo, é quando algo extrínseco se predica de algum sujeito ao modo de alguma denominação (per modum alicuius denominationis); assim, com efeito, também os acidentes extrínsecos se predicam das substâncias; não dizemos, no entanto, que o homem é brancura, mas que o homem é branco. Ora, denominar-se por algo extrínseco encontra-se, de algum modo, comum em todos, e, de algum modo, especialmente naquilo que pertence somente aos homens.

Comumente, porém, algo se denomina por algo extrínseco, ou segundo a razão de causa (secundum rationem causæ), ou segundo a razão de medida (secundum rationem mensuræ); pois algo se denomina causado e medido por algo exterior.

Ora, como os gêneros de causas são quatro, duas dentre estas são partes da essência, a saber, a matéria e a forma; donde a predicação que pudesse fazer-se segundo estas duas pertence ao predicamento da substância, como, por exemplo, se dissermos “o homem é racional”, e “o homem é corpóreo”.

Mas a causa final não causa separadamente algo do agente, pois o fim tem razão de causa enquanto move o agente. Resta, portanto, somente a causa agente, da qual algo pode denominar-se como por algo exterior.

Assim, pois, segundo o que algo se denomina pela causa agente, é o predicamento da paixão (passionis), pois padecer nada é senão receber algo do agente; segundo, porém, o que, ao contrário, se denomina a causa agente pelo efeito, é o predicamento da ação (actionis), pois a ação é o ato do agente em outro, como foi dito acima.

A medida, todavia, é intrínseca ou extrínseca. Intrínseca, como a longitude, a largura e a profundidade próprias de cada coisa; por estas, algo se denomina como por algo intrínseco inerente; donde pertence ao predicamento da quantidade.

As medidas exteriores, contudo, são o tempo (tempus) e o lugar (locus); segundo o que algo se denomina pelo tempo, é o predicamento do quando (quando); segundo, porém, o que se denomina pelo lugar, é o predicamento do onde (ubi) e da situação (situs), o que acrescenta, sobre o onde, a ordem das partes no lugar. Ora, isto não era necessário acrescentar da parte do tempo, uma vez que a ordem das partes no tempo se importa na razão do tempo: com efeito, o tempo é número do movimento segundo um antes e um depois (secundum prius et posterius). E assim algo se diz ser quando ou onde por denominação do tempo ou do lugar.

Há, não obstante, algo especial nos homens. Pois, nos outros animais, a natureza deu suficientemente aquelas coisas que pertencem à conservação da vida, como os chifres para defender-se, o couro grosso e peludo para cobrir-se, os cascos ou algo deste tipo para andar sem lesionar-se. E assim, quando tais animais se dizem armados ou vestidos ou calçados, de algum modo não se denominam por algo extrínseco, mas por algumas de suas partes. Donde isto se refere neles ao predicamento da substância, como, por exemplo, se se dissesse que o homem é munido de mãos ou de pés.

Mas tais coisas não puderam ser dadas ao homem pela natureza, tanto porque não convinham à sutileza de sua compleição, como pela multiformidade das obras que convêm ao homem enquanto tem razão, às quais alguns instrumentos determinados não podiam ser acomodados pela natureza; mas, em vez de todos estes, encontra-se no homem a razão, pela qual prepara para si as coisas exteriores no lugar daquelas que são intrínsecas aos outros animais. Portanto, quando o homem se diz armado ou vestido ou calçado, se denomina por algo extrínseco, que não tem razão nem de causa nem de medida; donde é um predicamento especial, e se chama hábito (habitus).

Deve-se, entretanto, notar que este predicamento também se atribui a outros animais, não segundo o que são considerados em sua natureza, mas enquanto são de uso para o homem, como, por exemplo, se dissermos o cavalo ajaezado, selado ou armado.

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