XXIV Teses segundo a mente do Doutor Exímio

por Luis G. Alonso Getino, O.P.

Tradução por Abner Benedetto

9/23/20267 min read

La Ciencia Tomista, mai.-jun. 1917, n. 45, t. XV, pp. 384-388.

I. Potência e ato não se dizem propriamente princípios do ente; pois o ente é simplicíssimo e, por isso, de qualquer modo que exista, é ente em ato, ainda que porventura em potência para outro. (Disp. Metaph., 15, seção 9; ibid., 31, por inteiro; especialmente a seção 2, n. 23 et seqq.)[1]

II. O ato pode dizer perfeição, quer em sua razão formal, quer dentro de sua espécie, limitada; é, portanto, finito por si mesmo ou, talvez, pelo agente, não pela potência na qual é recebido. (Disp. Metaph., 30, seção 2, n. 18 et seqq.; ibid., 5, seção 2; ibid., 31, seção 13, n. 14 et seqq.; De Angelis, lib. 1, caps. 12 e 15.)[2]

III. De qualquer modo que Deus difira das criaturas enquanto existente necessário, é falso que toda criatura seja composta e, sobretudo, que nela o ser se distinga realmente da essência. (Disp. Metaph., 31, especialmente as seções 4, 6 e 13.)[3]

IV. Seja o que for que se deva sustentar acerca da analogia do ente, o conceito objetivo do ente é simpliciter uno. (Disp. Metaph., 2, seções 2 e 3.)[4]

V. De modo algum é necessária a distinção entre essência e ser para que os acidentes se distingam do sujeito. As formas acidentais, porém, existem por ato próprio. (Disp. Metaph., 5, seções 7, 8 e 9.)[5]

VI. O quarto predicamento, de todo modo, é o relativo; em nenhuma relação, porém, há entidade real alguma além dos termos e do fundamento, que são algo absoluto. (Disp. Metaph., 47, sect. 9. Ainda, em De Trinitate, lib. 3, cap. 9, onde, contra Santo Tomás, ensina que cada Pessoa [divina] possui perfeição entitativa própria, não inteiramente idêntica à perfeição das outras, mas equipolente.)[6]

VII. Não se deve pôr nas criaturas espirituais nenhuma composição substancial, nem nelas se distinguem realmente o ser e a essência. (Disp. Metaph., 31, seção 13, n. 24 et seqq.)[7]

VIII. Assim, o corpo se compõe de matéria e forma, de modo que ambas têm essência própria e ser próprio e, por isso, existem por natureza antes de serem unidas. (Disp. Metaph., 13, seção 5; ibid., 33, seção 1; ibid., 15, seção 6, n. 3 e seção 9)[8]

IX. Donde cada uma é termo de sua própria produção, ainda que se diga que não são produzidas per se, porquanto cada uma é ordenada à outra. (Disp. Metaph., 15, sect. 4.)[9]

X. Somente pela razão não se pode demonstrar a distinção real entre a quantidade e o corpo. A substância, no entanto, mesmo sem quantidade, tem de si mesma partes integrantes; a quantidade confere [a estas] posição ordenada. (Disp. Metaph., 40, seções 2 e 4.)[10]

XI. De modo algum a individuação dos corpos, que acompanha qualquer ente, pode ser repelida da matéria. (Disp. Metaph., 5, especialmente as seções 3 e 4.)[11]

XII. Mesmo prescindindo da quantidade, a substância – ainda, tudo quanto é real – tem por si sua própria ubicação, e a multiplicação local do corpo de modo algum repugna. (Disp. Metaph., 51, por inteiro, especialmente as seções 2, 4 e 5; novamente na Disputatio de Eucharistia na III da Summa, onde desenvolve uma doutrina inteiramente oposta à doutrina do Aquinate. De Angelis, lib. 4, cap. 3; Disp. Metaph., 30, seção 7, n. 34.)[12]

XIII. [Os corpos dividem-se de duplo modo: uns são viventes, outros, desprovidos de vida. Nos viventes, para que, no mesmo sujeito, sejam tidas per se uma parte motora e uma parte movida, a forma substancial, designada pelo nome de alma, requer uma disposição orgânica, isto é, partes heterogêneas.] Nisto todos estão de acordo. (Suárez, contudo, difere de Santo Tomás nisto: que o primeiro movimento do vivente, segundo o Aquinate, provém de um princípio exterior; segundo Suárez, não tem motor externo. Disp. Metaph., 18, seção 7.)[13]

XIV. A alma vegetativa e sensitiva certamente tem seu ser e é produzida per se, salvo que é produzida de tal modo que seja infundida no corpo e, por isso, se diz que não é termo da criação. (Disp. Metaph., 15, seções 2, 4 e 9, n. 5, onde trata da forma substancial em comum, especialmente a seção 2, n. 13, depois da metade. Cf. De Anima.)[14]

XV. A alma humana subsiste per se, a qual é infundida no corpo em consequência de sua produção e, por isso, em sua individuação, não pode depender do corpo. (Disp. Metaph., 5, seção 5.)[15]

XVI. Embora mais comumente e melhor se diga que a alma é a única forma do homem, contudo, isso não é demonstrado de modo irrefutável, nem as razões de Santo Tomás têm força de necessidade. (Disp. Metaph., 13, seção 13, n. 14.)[16]

XVII. Tampouco é certa a distinção entre as faculdades e a alma, que talvez seja per se o princípio imediato da operação. (Disp. Metaph., 14, seção 5, e no tratado De Anima.)[17]

XVIII. Não há razão alguma pela qual o imaterial deva ser intelectivo; por isso, nem a ciência de Deus é suficientemente provada a partir de sua espiritualidade. (Disp. Metaph., 30, seções 14 e 15.)[18]

XIX. Mais provavelmente, contra Santo Tomás, nega-se a distinção entre o intelecto agente e o intelecto possível. (De Anima, lib. 4 e lib. 53.)[19]

XX. O universal formal constitui-se pela própria abstração; os singulares, porém, são objeto de conhecimento direto. (Disp. Metaph., 6, seções 5 e 6; ibid., 35, seções 2, 3 e 4; De Anima, lib. 4, cap. 3.)[20]

XXI. Não há necessidade de um juízo prático que preceda a eleição, mas um ato perfeito da vontade pode seguir-se à apreensão da elegibilidade. (Em De Auxiliis e nos Prolegomenis ad Gratiam; Disp. Metaph., 19, seção 6.)[21]

XXII. Ainda que se prove que Deus é causa do universo e ordenador de todas as coisas, as vias pelas quais isso é provado, contudo – e que são sobretudo aprovadas pelo Aquinate a partir de princípios admitidos, a saber: “tudo o que é movido é movido por outro” e “onde se dá o mais e o menos, existe o máximo” –, não têm eficácia; antes, esses princípios são ou falsos ou, ao menos, duvidosos. (Disp. Metaph., 18, seção 7; ibid., 29, seção 1, n. 7 et seqq.; seção 3, n. 21.)[22]

XXIII. É melhor pôr como o princípio pelo qual se derivam os atributos divinos o próprio fato da asseidade. (Disp. Metaph., 30, seção 6, é indicado, contudo mais plenamente em Lossada e nos demais de sua escola.)[23]

XXIV. Com efeito, somente Deus tem poder sobre todo ente; também a criatura, porém, tem formalmente poder sobre este ou aquele. Nem se demonstra por razão que a faculdade de criar algo não possa ser comunicada a nenhuma criatura. Deve-se, por fim, admitir que o agente criado necessita do concurso de Deus para o mesmo efeito, sem, todavia, receber diretamente do próprio Deus a moção. (Disp. Metaph., 20, seções 2 e 3; ibid., 22, seção 2, n. 51, diz que Santo Tomás se retrata, na Summa, do que escrevera na questão De Potentia, a. 7; ali, na seção 3, torce a moção para o concurso no efeito, especialmente n. 12 e seção 4. O mesmo, de forma mais ampla, em De Auxiliis.)[24]

Notas

[1] Potentia et actus non bene dicuntur entis principia; ens enim est simplicissimum et ideo quomodocunque existit est ens in actu etsi forte in potentia ad aliud. [N. do T.]

[2] Actus dicere potest perfectionem: tum in sua ratione formali, tum intra suam speciem, limitatam; seipso, igitur, vel fortasse ab agente, non per potentiam in qua recipitur, finitus est. [N. do T.]

[3] Utcumque Deus differat a creaturis ut necessario existens, falsum est creaturam omnem esse compositam, in eaque praesertim esse ab essentia re distingui. [N. do T.]

[4] Quidquid de entis analogia teneri debeat, entis conceptus objectivus est simpliciter unus. [N. do T.]

[5] Nullo pacto accidentia a subjecto distinguenda distinctione inter essentiam et esse opus est. Formae vero accidentales proprio actu existunt. [N. do T.]

[6] Est utique quartum praedicamentum relativum; sed relationis nulla est realis entitas praeter terminos et fundamentum quae sunt aliquid absolutum. [N. do T.]

[7] Nulla in creaturis spiritualibus ponenda est substantialis compositio, nec in ipsis esse et essentia re distinguuntur. [N. do T.]

[8] Ita corpus coalescit ex materia et forma, ut harum utraque essentiam propriam et proprium esse habeant, ideoque existant natura prius quam uniantur. [N. do T.]

[9] Quapropter singulae sunt terminus propriae productionis; etsi dicuntur non per se produci quia unaquaeque ad aliam ordinatur. [N. do T.]

[10] Ex sola ratione, realis distinctio quantitatis a corpore evinci nequit. Substantia vero etiam sine quantitate partes integrantes ex seipsa habet; quantitas ordinatam positionem tribuit. [N. do T.]

[11] Nullo modo corporum individuatio, quae ens quodcumque comitatur, a materia repeti potest. [N. do T.]

[12] Etiam praescindendo a quantitate substantia, imo quidquid reale est, per se habet, ubicationem suam, et multiplicatio corporis localis nullo modo repugnat. [N. do T.]

[13] [Corpora dividuntur bifariam: quaedam enim sunt viventia, quaedam expertia vitae. In viventibus, ut in eodem subiecto pars movens et pars mota per se habeantur, forma substantialis, animae nomine designata, requirit organicam dispositionem, seu partes heterogeneas.] In hoc conveniunt omnes. [N. do T.]

[14] Vegetalis et sensilis anima habet certe suum esse et per se producitur, nisi quod ita producitur ut corpori infundatur ideoque dicitur non esse terminus creationis. [N. do T.]

[15] Per se subsistit anima humana quae consequenter ad productionem corpori infunditur, ideoque in sua individuatione non a corpore pendere potest. [N. do T.]

[16] Etsi communius et melius dicitur anima esse unica hominis forma, tamen neque hoc invicte probatur nec S. Thomae rationes necessitatem habent. [N. do T.]

[17] Neque certa est distinctio facultatum ab anima, quae fortasse per se principium est operationis immediatum. [N. do T.]

[18] Nulla est ratio cur immateriale esse debeat intellectivum; quamobrem nec Dei scientia ex eius spiritualitate satis probatur. [N. do T.]

[19] Probabilius contra S. Thomam, negatur intellectus agentis distinctio ab intellectu possibili. [N. do T.]

[20] Universale formale per ipsam abstractionem constituitur; singularia vero directae cognitionis obiectum sunt. [N. do T.]

[21] Non est opus iudicio practico electionem praecedente, sed actus voluntatis perfectus aprehensionem eligibilitatis sequi potest. [N. do T.]

[22] Etsi probatur Deus ut causa universi et omnia ordinans, quae viae tamen maxime Aquinati probantur ex principiis acceptis: omne quod movetur ab alio movetur, et: ubi datur maius et minus existit maximum, efficaciam non habent; imo ea principia vel falsa vel saltem dubia sunt. [N. do T.]

[23] Melius ponitur ut principium quo trahuntur divina attributa ipsum factum asseitatis. [N. do T.]

[24] Utique solus Deus potest in omne ens; in hoc tamen vel illud ens etiam creatura formaliter potest; nec ratione vincitur facultatem aliquid creandi nulli creaturae communicari posse; admitti denique debet creatum agens indigere concursu Dei in eundem effectum, at non directe ab ipso Deo motionem accipere. [N. do T.]

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